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Impactos - Monocultivos

Monocultivos

São vários os monocultivos que têm prejudicado de maneira profunda a vida do São Francisco. Abaixo seguem alguns exemplos das culturas mais prejudiciais à saúde do Velho Chico.

Eucalipto
O avanço da siderurgia mineira, dependente do carvão vegetal, alavancou o mercado dessa matéria-prima. Matas e cerrados foram transformados em carvão, que cruzava as estradas mineiras em caminhões que viajavam à noite, lentos e mal-equilibrados. Para dar conta da demanda de carvão das siderúrgicas, também foi introduzido o cultivo do eucalipto, ainda no início do século XX. (4)

A silvicultura logo se organizou em bases empresariais e na forma de grandes unidades de produção, especialmente a partir das décadas de 1960 e 1970, as empresas do setor, associadas às companhias siderúrgicas, expandiram-se sobre o cerrado e aproveitaram programas nacionais e regionais de incentivos creditícios e fiscais. Ao concentrarem terras e empregarem técnicas avançadas, poupadoras de mão-de-obra, as empresas de silvicultura contribuíram para o agravamento dos problemas sociais no Norte/Nordeste mineiro.

As empresas ditas “reflorestadoras”, que não plantam florestas mas monocultivos, criam grandes áreas de deserto verde. Esses plantios estão distribuídos em quase todas as regiões da parte mineira da Bacia do São Francisco, avançando para o Médio São Francisco, na Bahia. As empresas implantaram enormes maciços de eucalipto não respeitando as comunidades locais e os limites ambientais, como áreas de preservação permanente e áreas inaptas para esse tipo de atividade. O passivo ambiental deixado é enorme e os conflitos tendem a se agravar. Na região de Bocaiúva, no Norte de Minas, a Valourec Manesmann, através de um segurança contratado, assassinou no dia 26 de fevereiro de 2007, Antônio Joaquim dos Santos, camponês de uma comunidade cercada pela empresa. (5) Os monocultivos de eucalipto causam enorme deficit hídrico onde são implantados. Alguns cálculos mostram que na Região do Norte de Minas, em 1 milhão de ha são consumidos 1,64 bilhões de m3 por ano.

Em Minas Gerais, já são 1,2 milhões de hectares de eucalipto. A iniciativa privada e o governo do estado vêm consolidando o Pacto da Sustentabilidade, criado para evitar o que supõe ser um “apagão florestal”, se faltar carvão para a siderurgia. Por esse Programa, pretende-se aumentar a área plantada de eucalipto para 3,8 milhões de ha até 2017. (6)

O setor é dos que mais cresce, pelo aumento da demanda mundial de celulose, não só para papel e congêneres, mas também para a produção de energia, como matéria-prima do etanol linho-celulósico, segundo especialistas, a fonte de Agroenergia mais promissora e lucrativa em um futuro próximo.

Na área social o problema é ainda maior. Muitas empresas foram beneficiadas pelo incentivo governamental,através de contratos para uso das terras públicas (devolutas) no Norte de Minas, São Francisco e Jequitinhonha, expulsando as populações que ali viviam e usavam as terras de forma comum, coletando frutos do Cerrado e criando gado na “solta”.

Semelhantemente ao caso da soja, as florestas artificiais se expandem com financiamentos do BNDES, BID, Banco do Brasil e de Fundos de Investimentos privados em direção às regiões Norte, Centro Oeste e Nordeste. Ademais, elas se expandem sobre áreas ocupadas por quilombolas, indígenas e pequenos agricultores que se ocupavam com a produção para autoprovisionamento e venda de excedentes no mercado.

Soja
O carro-chefe do agronegócio brasileiro é a produção de soja. São 21 milhões de hectares plantados, o equivalente a 45% de toda a área cultivada na safra 2007/2008. (1) Estimativas do setor agrícola apontam que, a partir da safra 2007/2008, o país ultrapassará os Estados Unidos e assumirá definitivamente a liderança do ranking dos maiores exportadores do grão.
O atual modelo de exploração da soja no Brasil gera devastação ambiental, concentração fundiária, desrespeito aos direitos trabalhistas e humanos, poluição de rios, do solo e do ar, e todo tipo de pressão sobre indígenas e populações tradicionais.

Junto ao avanço do grão, desenvolveu-se uma complexa agroindústria, que envolve transnacionais de agroquímicos, pesquisa genética, empresas agrícolas, bancos, tradings e indústrias de setores tão diversos como vernizes e alimentos. No Brasil, as empresas ADM, Bunge, Cargill e a Coinbra, do grupo Louis Dreyfus, comandam mais da metade da negociação da soja produzida no país, ao lado de companhias nacionais poderosas, como a Ammagi.
A última novidade é a indústria de biodiesel, que, para garantir a mistura obrigatória ao diesel de petróleo, produz o combustível a partir do óleo de soja, base de pelo menos 80% do biodiesel fabricado no Brasil.
Para garantir rentabilidade, a soja necessita de grandes áreas para ser produzida em escala, detonando um processo que muitas vezes termina na concentração da terra e na expulsão do homem do campo. A altíssima produtividade brasileira, que, na casa das 60 sacas por hectare em algumas regiões, é uma das maiores do mundo, é conquistada com base no massivo uso de agroquímicos, cujo manejo, ainda que seguindo todas as normas legais, não evita a contaminação do solo, dos rios e dos trabalhadores.

Diante do aumento da demanda mundial por soja, prevista nos próximos anos, e da expectativa de que serão os produtores brasileiros aqueles que mais ampliarão sua oferta, a fronteira agrícola continuará se expandindo. 
A constituição de um mapa futuro da expansão da soja dependerá também das mudanças que ocorrem nos setores de transporte e armazenamento da produção.

No Nordeste, a área de cultivo de soja aumentou entre 2007 e 2008, por 7,5%, chegando a 1.570 milhões de hectares. (2) De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a  produção de grãos no Nordeste, mais concentrada nos estados da Bahia, Maranhão e Piauí, dobrou em uma década, chegando a 12,5 milhões de toneladas na última safra.
Esta tendência dos últimos anos de avanço da soja no Nordeste será fomentada ainda mais através dos grandes investimentos em transporte para escoamento da produção, como a ferrovia Leste-Oeste e várias estradas e hidrovias incluídos no PAC.

Na Bacia do Rio São Francisco, os planaltos do Bioma Cerrado (link para texto Biomas), situados no Oeste da Bahia e no Noroeste de Minas Gerais, são os centros da produção de soja. Em geral o avanço da soja constitui um dos principais fatores que ameaçam o ecossistema dos Cerrados, devido à falta de um planejamento territorial.
O Oeste da Bahia, região compreendida entre os municípios de Formosa do Rio Preto, ao norte na divisa com o estado do Piauí, e Cocos, ao sul na divisa com o estado de Goiás, representa uma importante fronteira agrícola do país. Considerando as formações de Cerrado e transição com outros ecossistemas, a região ocupa aproximadamente 9,6 milhões de hectares, sendo que a área destinada ao desenvolvimento da agropecuária corresponde atualmente a mais de dois milhões de hectares.

Ali a preocupação se volta contra um verdadeiro pacote de agressões socioambientais: uso indevido dos recursos hídricos, concentração fundiária, grilagem, carvoarias, contaminação por defensivos agrícolas e, novamente, plantações de eucalipto, algodão, cana e soja. Na área da bacia do rio Grande, a maior da margem esquerda do São Francisco, está localizado o mais amplo lago subterrâneo do Brasil. O principal município da área é São Desidério – líder nacional em renda agrícola gerada por produção de grãos em 2006 –,que possui quase 290 mil hectares de soja.

A criação de unidades de conservação não garante o fim da exploração insustentável dos recursos naturais. Em se tratando da monocultura de soja, muitas vezes, as iniciativas de preservação sequer são levadas em conta.

Isso vem ocorrendo na região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, no oeste Baiano. Este último, emancipado de Barreiras em 2000, já possui mais de 128 mil hectares de soja plantados. Já Barreiras conta 147.400 hectares do grão 42. Boa parte deles dentro de uma área de preservação ambiental (APA).

Um dos valores ambientais mais importantes da região é o fato de se tratar de uma área de recarga do aqüífero Urucuia. Justamente nessa região têm sido praticadas atividades como agricultura de sequeiro e irrigada, desmatamentos e queimadas. Além disso, as propriedades instaladas na área não possuem reserva legal.
Enquanto isso, a prefeitura de Luís Eduardo Magalhães alardeia estar “na maior reserva de área agricultável de Cerrado do mundo”, com três milhões de hectares a serem explorados. Também existe a previsão da instalação de uma planta de biodiesel para absorver a produção daquele pólo.

Na região do oeste baiano, por exemplo, a utilização de pivô central é altamente difundida, mesmo para culturas tradicionais de sequeiro, como a soja. Esse tipo de irrigação utiliza uma tubulação à qual são conectados aspersores que lançam água – e eventualmente agrotóxicos – a distâncias entre 50 e 130 hectares, em média, em movimentos circulares. Isso elevou vertiginosamente a demanda por águas subterrâneas na região. Em setembro de 2007, foi feito um levantamento, ainda não publicado, na área de influência do aqüífero Urucuia, que se estende por 76.000 km2 desde o sul do Piauí até o noroeste de Minas Gerais, com maior expressão no oeste da Bahia.

O estudo diagnostica que “nas últimas décadas, tem se desenvolvido, em todo o chapadão, um processo acelerado de agricultura mecanizada, substituindo o cerrado nativo, através de irrigação permanente e de grande desperdício de água, principalmente em culturas de soja, café, arroz e algodão. Desta forma, um grande número de poços já foi perfurado na área do aqüífero, tanto para abastecimento humano, quanto para extensivas irrigações sem, contudo, ter sido avaliada sua hidrogeologia com propriedade. Como essas reservas hídricas não estão ainda devidamente avaliadas e dimensionadas, há sérios riscos de se estar promovendo uma superexploração de um dos mais importantes sistemas aqüíferos do Estado”.

Indícios apontados pela própria pesquisa dão conta de que os impactos dessa alta demanda hídrica já estão aparecendo: “No período seco que vai de março a outubro, os rios recebem água do aqüífero, mantendo-os perenes, entretanto alguns rios da região já estão com suas vazões bastante afetadas pelo grande volume de água retirado do aqüífero para irrigação. (...)Além dos problemas descritos acima há também a retirada das matas ciliares e compactação do solo para práticas agrícolas, fazendo com que haja uma diminuição do processo de infiltração, reduzindo a recarga para o aqüífero”.

A transformação das matas nativas do Cerrado em grandes áreas extensas de monocultivos com solo exposto a ação do vento, do sol e das chuvas leva a processos de erosão muito expressivos. A perda de solo nas culturas de grãos chega a 10 toneladas de solo erodido para cada tonelada de grãos produzida, segundo documentos dos Ministérios do Meio Ambiente (MMA) e da Agricultura (MAPA).

Além da expansão da soja nos planaltos do Cerrado avançam também as culturas de milho e algodão. Somente no período de 1998 a 2003 houve um aumento em 56% da produção de algodão na região. (3)

(1) Do reltório Repórter Brasil Soje e Mamona
(2) http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/caminhosdocampo/conteudo.phtml?tl=1&id=870135&tit=Economia-do-Nordeste-e-Centro-Norte-tem-nova-composicao
(3) http://www.bioeste.org.br/onde_atuamos.php
(4) http://www.minasdehistoria.blog.br/2008/09/minas-sera-um-mar-de-eucaliptos/
(5) Relatório SISEMA 01/2005, Processo COPAM 194/1977, Relatório Técnico  - Mortandade de Peixes, 2005, 26 pp. (mimeo)
(6) Cf. Martins, Marcos Lobato - Minas será um mar de eucaliptos? http://www.minasdehistoria.blog.br/2008/09/minas-sera-um-mar-de-eucaliptos/.