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 IMPACTOS Agrocombustíveis  

Impactos - Agrocombustíveis

Agrocombustíveis

A onda dos agrocombustíveis, que o marketing oficial insiste em chamar “biocombustíveis”, está trazendo um inédito e avassalador assédio sobre terras, águas e territórios da Bacia do Rio São Francisco.

BahiaBio
O caso mais notório é o BahiaBio, programa do Governo da Bahia, através do qual 510 mil hectares perfazem o potencial de cana irrigada na Bacia do São Francisco. Para se ter uma idéia da devastação, para irrigar 510 mil ha são necessários 510 mil litros por segundo em média, ou seja, 510 m³. Um litro de etanol pode consumir até 3.600 litros de água para ser produzido com a cana irrigada. 
O Comitê de Bacia do São Francisco, baseado em dados da Agência Nacional de Águas (ANA), diz que no São Francisco restariam apenas 25 m³/s, que a Transposição consumiria. De onde vão tirar água suficiente para tanta cana e etanol?
O governo baiano criou uma política de incentivos fiscais para a produção de etanol no Estado, com percentuais de abatimento da carga tributária entre 4,5% e 18% sobre o ICMS, conforme o tipo de álcool produzido, sua destinação e a localização da empresa. Uma das áreas mais cobiçadas é o Oeste Baiano, no Médio São Francisco. Conforme o BahiaBio, a Região deverá atingir, até 2015, uma área de 300 mil hectares plantados com cana-de-açúcar, tornando-se um novo pólo sucroalcooleiro no país.
Os EUA também estão querendo investir na região. 30 mil há de terra às margens do rio São Francisco estariam na mira de fundos norte-americanos, com o intuito de plantar a cana irrigada e produzir 260 milhões de litros de álcool combustível, e gerar 96 MW de energia a partir da queima do bagaço.
A estimativa da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA) é que, em dez anos, a cana ocupe 20% de toda a área plantada no Cerrado, o que representará 300 mil ha. Exemplos disso são os dois grandes projetos no município de São Desidério (BA). O grupo Agrícola Xingu, braço da Multigrain, investe R$ 570 milhões em um projeto que prevê o plantio de 30 mil ha de cana irrigada com água do rio Guará, divisa com o município de Correntina-BA. Outro empreendimento no setor já está sendo articulado para implantação, no município de Luis Eduardo Magalhães, por um grupo de investidores paulistas.

Cana na Região das Nascentes
A Região conhecida como “Nascente do São Francisco” está localizada no Centro-Oeste mineiro e compreende municípios como São Roque de Minas, Lagoa da Prata, Bambuí, Luz, Arcos, Pains e outros.
A monocultura da cana ocupa 85% do município de Lagoa da Prata e parte de municípios vizinhos. A produção é garantida por poucas fazendas arrendadas e que vendem a produção à usina. Atualmente a indústria de etanol é de propriedade da transnacional francesa Louis Dreyfus.
A fazenda Luciânia, que abriga uma usina de cana em Lagoa da Prata, implantada na década de 60, foi responsável por vários impactos ambientais na região, como supressão da vegetação, assoreamento, destruição de lagoas, poluição, entre outros. Os proprietários da fazenda, a fim de obter facilidades de transporte, realizaram um corte de 300 m no leito do Rio São Francisco, no local onde o Rio fazia uma curva fechada de aproximadamente 7 km.

Expansão da cana e de seus impactos no Alto São Francisco
Por volta de 2005, iniciou-se um processo de expansão da monocultura da cana de açúcar (de etanol) para os municípios de Iguatama, Bambuí, Luz, Arcos e Capitólio. Uma usina da empresa Total está sendo implantada em Bambuí, e estão planejadas mais uma no município, duas em Arcos e uma em Iguatama. A expansão, incentivada pelas empresas Louis Dreyfus e Total, se dá com arrendamento das propriedades da região (contratos em torno de 10 anos e com valor de R$ 35 por ha ao mês) e compra de cana de fornecedores (em menor número).
Os impactos ambientais que já se observam: desmatamento ilegal; monocultivos afetam a conservação da bio e agrodiversidade; queimadas e poluição do ar com a palha da cana queimada, causadora de sujeira e doenças; contaminação das águas e do solo por agrotóxicos e chorume; destruição de lagoas, afetando a reprodução da ictiofauna; abuso da água (a Louis Dreyfus retira água diretamente do leito do São Francisco, para processamento industrial e em etapas da produção da cana).

Produção de etanol no Médio - Barra (BA)
A Celltrion é a empresa coreana que, em parceria com o governo da Bahia, vai adquirir uma área de aproximadamente 40 mil ha (quatro fazendas à margem do Rio Grande), no município de Barra (BA), para plantio de cana e produção de etanol. A previsão é de que a unidade agroindustrial produza 1,3 milhões de litros de etanol por ano e 50 MW/h de energia elétrica. Novidade, o projeto viria com regularização fundiária para as comunidades ao redor e unidades de conservação. As responsabilidades social e ambiental já viriam prontas. Não há como não suspeitar: as terras regularizadas das comunidades seriam também para plantar e fornecer cana para as usinas da Celltrion?

Cana no Sub-médio
O Canal do Sertão terá 456,8 km passando pelas terras mais férteis do sertão pernambucano, podendo irrigar aproximadamente 150 mil ha. O canal vai duplicar a área irrigada entre Pernambuco e Bahia. Usinas de etanol seriam cinco. O acordo com o Grupo Itochu já havia sido firmado pelo Governador do Estado em recente visita ao Japão. Na empreitada estariam também a Petrobrás, Votorantim e Odebrecht.
Um dos grandes perímetros de irrigação que vai ser alimentado por este canal é o projeto de irrigação Cruz das Almas com 28 mil ha, em Casa Nova (BA) destinado à produção de biocombustíveis e fruticultura. A AGROVALE, no Projeto Tourão, em Juazeiro-BA, maior área de cana irrigada do mundo (16 mil ha), está em franca expansão. Até 2011, gastará R$ 60 milhões para ampliar sua área irrigada de 16,5 mil para 21 mil hectares. Isso elevará sua capacidade de moagem de cana para 2,2 milhões de toneladas anuais. Em 1984, a AGROVALE foi responsável pelo despejo de vinhoto no Rio, matando toneladas de peixes, alterando para sempre o ecossistema aquático no trecho atingido.

Cana no Baixo
No baixo São Francisco são intensificados pólos de irrigação de monocultivos, especialmente de cana para a indústria sucroalcooleira, como a Usina Paisa do Grupo Toledo, em Alagoas, que assim como outras tem um intensivo gasto de água e é uma das principais poluidoras das lagoas marginais, rios e afluentes, não respeitando nem áreas de proteção ambiental. Além da cana, grandes plantações de coco, fumo, mamona, etc., impactam territórios tradicionais, como as comunidades de Betune, Marituba do Peixe, Ponta Mufina, Serrão, Ilha do Aurélio (AL), etc.